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"S�bio n�o � quem leu 150 livros, mas quem conseguiu amar um livro."

30/07/2007 18:01

CANSEI - QUASE DORMI

CANSEI EM 1953

Jânio era prefeito de São Paulo.Um grupo de jovens democrátas aguerridos mas inexperientes da Faculdade de Direito, inspirados por Marcos Pereira e pelo veterano Paulo Duarte, resolveu criar o Movimento Cívico de Recuperação Nacional.
A meta era mobilizar a nação contra a corrupção. Moralizar era a meta. E a questão moral no país era coisa de criança comparada com os padrões atuais.
Decidimos com o velho Mangabeira convidar Lacerda, o prefeito Janio Quadros, introdutor da vassoura como utensílio moralizador da administração pública e o governador Lucas Garcez, um engenheiro honrado, apesar de sua eleição ,via Ademar de Barros.
Viviamos de símbolos e de emblemas e resolvemos que o comicio seria no Monumento do Ipiranga. Lugar distante, inadequado, com pouca condução, sobretudo para o universo convocador, que sonhava com as massas mas só mobilizava uma mínima parcela da burguesia.
Janio fez suspense. Não vou, informou aos organizadores, depois de ter confirmado sua ida. Lacerda fez um esparramo e acabou conseguido que Janio fosse no último momento. Chegou com casacos e cachecois simulando forte gripe. Falou com entusiasmo da ausência de Lucas Garcez. O resto foi aquele moralismo udenista que estava na moda, mas não mobilizava ninguém. A mobilização foi um fracasso. Minha geração só aprendeu alguma coisa depois da morte de Getulio.

CANSEI EM 2007

Cinquenta e alguns anos depois cansei de novo. Um enorme cansaço diante da impunidade moral e da preguiça administrativa.
Ninguém é punido se faz alguma coisa errada e ninguém é punido se não faz o necessário na hora certa.
Mais uma vez mobiliza-se a burguesia, com anúncios e frases veementes. Mas a burguesia rentista não tem do que reclamar, a não ser da violência que cerca seus esquemas de segurança. Quaisquer que sejam os governantes seus “fundamentals” estão garantidos e suas vidas, estruturalmente protegidas.
Além do mais, não adiante protestar contra o genérico. Manifestação social deve ter foco, como na campanha das diretas.
É verdade que a crise aérea com suas trágicas consequências é um foco. É verdade que na passeata de domingo, o mais representativo das seis mil pessoas, foram as vítimas vivas da tragédia, pais, mães, filhos, irmãos e amigos dos mortos.

Eu também cansei, cansei até de cansar. Mas cansei mesmo do que?

Precisamos eleger a grande causa do nosso cansaço antes de irmos para as ruas com os dois grandes cachecois do Janio Quadros.

Podemos escolher alguns “do que cansei”:

De deputado que muda de partido. De juiz que dá liminar. De delitos provados, comprovados e não punidos. Da ANAC. De Congonhas. Das estradas federais. Dos portos congestionados. Do salário mínimo. Do ónibus lento. Do emprego distante. Do desemprego. Dos acidentes aéreos. Do sequestro relâmpago. Da bala perdida. Do seguro saúde. Da aposentadoria. Dos discursos. Das medidas provisórias. Do neoliberalismo. Dos juros. Das praias poluídas. Do ar. Do custo da educação.

Em vez do CANSEI talvez fose melhor adotar o ACORDEI.


enviada por Jorge da Cunha Lima






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